Se ainda há céticos sobre o fato de que o clima está mudando, penso que já é caso para oftalmologista. Na última quarta, 28, a revista Geophysical Research Letters revelou que o degelo dos polos já equivale ao aumento de “um fio de cabelo” por ano no nível do mar. Aparentemente isso pode parecer insignificante, mas segundo Andrew Shepherd, autor do estudo e pesquisador da Universidade de Leeds, o impacto do degelo é um sinal que não pode ser ignorado.
Partindo deste ponto, a mudança do clima não deve ser vista de modo linear. Seu contexto é formado por inúmeros nódulos que contribuem para seu agravamento. Soma-se a isso a perda da biodiversidade, que pode ser percebida na mudança das populações de diferentes espécies no planeta. E o relatório feito por especialistas da ONU, e publicado na revista Science, na última quinta, 29, confirma não só a perda como também seu aceleramento. Para Stuart Butchart a análise “mostra que os governos não cumpriram os compromissos assumidos em 2002 e, de fato, a perda da biodiversidade continua em um ritmo mais veloz do que nunca”.
Aqui podemos citar também a presença cada vez mais forte dos extremos ambientais. Desequilíbrio de chuvas, que resultam em enxentes e deslisamentos (vide Florianópolis e Rio de Janeiro). Desertificação de solos que contribuem negativamente para complicações na industria de alimentos. Aparecimento de Tufões e tempestades de raios nunca antes vistos. Pautas corriqueiras de qualquer redação de jornal hoje em dia.
Fato ou ficção, essas mudanças passaram a ser assumidas frequentemente nos foruns internacionais de debate sobre o tema. Recentemente, em Cochabamba, Bolívia, aconteceu a Conferência dos Povos sobre o Aquecimento Global, que reuniu cerca de 11.500 pessoas do mundo todo, entre 19 e 22/04. O evento veio como resposta da base dos movimentos sociais à inércia apresentada pelos países desenvolvidos na COP 15, ocorrida em Copenhague, em dezembro do ano passado.
Já agora, em 25 e 26 passados, Ministros do Meio Ambiente do Brasil, África do Sul, Índia e China (grupo que recebeu o nome de Basic) se reuniram na África do Sul no intuito de deliberar sobre as posturas desses países diante das mudanças climáticas.
O Basic pretende debater os critérios de equidade de emissões de carbono, isso porque cada país precisa definir qual será sua “fatia” de emissões para que a temperatura do Planeta não ultrapasse o aumento previsto de 2º C. Pretende também pautar consensos sobre temas fundamentais, como mitigação, adaptação e redução do desmatamento, tema de suma importância para o Brasil. Que, dado o ensejo, será sede da próxima reunião do Basic, em Julho, no Rio de Janeiro.
Todos esses debates internacionais apontam para a 16ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudança do Clima das Nações Unidas (COP-16), que ocorrerá em Cancum, no México, em dezembro deste ano. E como parte do processo de preparação para a COP-16, a nova ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, participará do primeiro encontro de nível ministerial em 2010, em Bonn, na Alemanha, de 2 a 5 de maio.
Tanta movimentação política internacional para tratar do clima deve ter algum intuito. Mas o que isso tem haver com a Greve dos Servidores Ambientais do MMA/IBAMA/ICMBio/SFB que veem acontecendo desde o dia 07 desde mês? Simplesmente tudo!
O Brasil possui a 2ª maior cobertura florestal do mundo, perdendo apenas para a Rússia. E entre os anos 2000 e 2005 o país liderou o ranking de desmatamento deste período. Isto segundo estudo baseado em observações por satélites publicado nesta segunda-feira, 26, nos Estados Unidos. Entretanto o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) acaba de divulgar esta quinta, 29, que houve decrescimento na taxa de desmatamento entre agosto de 2008 e julho de 2009.
Segundo dados consolidados do Prodes, o sistema que mede a taxa oficial de desmatamento, a Amazônia perdeu 7.464 Km² de floresta, ou melhor, cinco municípios de São Paulo. Ainda assim, é a taxa de desmatamento mais baixa desde 1988, quando o país passou a monitorar a Amazônia por satélite. Trata-se de uma queda de 42%.
Um país que assume com vaidade ter umas das maiores biodiversidades do planeta e que contribui ativamente para o desenvolvimento sustentável; Que está presente em quase, senão, todos os foruns de debate sobre meio ambiente internacionais; Que possui um Chefe de Estado eleito umas das pessoas mais influentes do mundo, segundo a revistaTimes; Que após liderar o ranking de desmatamento conseguiu controlar seu avanço, deve em muito à pessoas comuns que atuam nas pontas do poder executivo ambiental federal brasileiro.
Aqui a Greve se contextualiza como uma “Política Ambiental à beira do abismo”, tal como é intitulado nota de apoio à greve, que acolhe como signatários quinze das mais importantes organizações ambientalistas não governamentais brasileiras. A Greve aponta para uma incoerência a olhos vistos no modo como é feita a política ambiental no Brasil. “O descaso do governo federal para com as carreiras ambientais constitui a derradeira e inequívoca evidência de que presenciamos uma crise inaceitável na política socioambiental brasileira, em pleno Ano Internacional da Biodiversidade”, diz um trecho da supracitada nota.
A irrelevancia com que são tratados esses agentes da base ambientalista do serviço público federal contrasta gravemente com sua importância no cenário socio-econômico nacional e internacional. Que já vem sofrendo prejuízos com a paralização de mais de 6 mil servidores em 26 estados e no Distrito Federal. Certamente reproduz como de fato o assunto é priorizado pelo governo. Hoje após 23 dias de silêncio a cúpula do governo se manifestou sobre o assunto, numa demonstração clara da repercussão que a paralização provocou. Contudo deixou claro que tem posição fechada em não admitir conversar sobre salário e condições de trabalho.
Resta esperar novos capítulos de uma crise que não tem perspectiva de acabar, mesmo com a finalização da greve.
Fabrício Cruz é comunicador social e analista ambiental do ICMBio.


